terça-feira, 21 de julho de 2009

A ea, a família, os amigos, a sociedade e eu.

Ao longo da vida a pessoa vai-se modificando. As mudanças do Eu são normais à medida que a pessoa vai crescendo. Uns passam por muitas mudanças, outros nem por isso. Mas ninguém pode dizer que não mudou em nada durante toda a sua vida. Por mais subtil que seja a mudança, a pessoa muda sempre.

Eu não fugi à regra, claro. Fui mudando ao longo da minha vida. Não mudei muito... sempre mantive a minha essência. A Susana de 6 anos era a mesma com 16... e até com 26 anos. Com as mudanças normais de quem cresceu, socializou... de quem teve que ultrapassar obstáculos, vencer desafios. As tais mudanças subtis de que falei.

Porém, a Susana de 26 anos não é a mesma da Susana com 36. Durante este período deu-se uma mudança. Grande, por sinal... a essência perdeu-se.

Antes da ea... depois da ea. A doença mudou-me. Mexeu nos meus alicerces de tal forma que cai. Por pouco, todo o meu Eu não se desmoronou.

Cair... pode-se cair de várias formas. Pode-se ver essa queda de várias formas. Pode-se sentir essa queda de outras tantas formas... mas aprende-se sempre com a queda. Muda-se com a queda. Para bem. Para o mal.

Quando caímos, podemos ter sorte. A sorte de ter alguém ao nosso lado. Que nos pergunte se estamos bem. Que chore connosco. Que nos ajude a levantar. Que nos ajude a limpar as feridas. Que trate de nós. Que nos diga que já passou... Que vai ficar tudo bem.

Quando caímos, podemos não ter sorte. Podemos estar sozinhos sem ninguém à nossa volta. Podemos estar sozinhos rodeados de pessoas que não nos vêem ou que deixam dos nos ver quando caímos. E que, além de não nos verem, também não nos ouvem. Mesmo que falemos alto, mesmo que gritemos alto, mesmo que choremos alto. E por mais alto que falemos, que gritemos, que choremos... ninguém nos ouve. Porque não é alto o suficiente. Porque não é alto que chegue aos ouvidos das pessoas que estão em pé. Levantadas. Porque nós estamos no chão.

Então tudo muda. Nós mudamos. Eu mudei. Para o bem. Para o mal.

Vivia rodeada de pessoas. Tinha tantos - mas tantos - amigos... Chamavam-me formiga electrónica - 1m48cm e muita (demasiada) energia. A alma da festa que estava sempre alegre, que ria muito, que falava, brincava, dançava até se cansar (até cansar todos os que me rodeavam). "Adoramos ter-te connosco... sem ti isto seria tão aborrecido". Diziam que eu era "uma boa amiga, sempre no momento certo, no local certo, com a palavra certa".

A minha família é daquelas que tem milhares de tios, de primos... e por aí. Na loja, costumavam brincar comigo porque todos os dias aparecia um tio, um primo, um não sei quê para comprar óculos, mudar as lentes. Tanta que era a minha família. Grande. Isto para não falar nos meus primos e tios directos. Também muitos, também muito queridos. Do meu coração. No meu coração sempre.

Eu era muito querida na minha família, pelos meus amigos...

Era. Passado. Longe... demasiado distante... nublado. Esquecido. Sem retorno.

Hoje - tempo presente - sou tudo aquilo que nunca fui.

A ea mudou-me.

Não... não posso culpar a a doença. Não. A ea é uma doença muito chata, é verdade. Mas não posso usá-la como bode expiatório.

Os meus amigos, a minha família, a sociedade. Sim... foram eles que me mudaram.

Amigos: restaram 2 (P. a minha melhor amiga de décadas e o meu querido J. meu amiguinho de infância) + 1 (R. o namorado da minha melhor amiga que na altura não me conhecia de lado nenhum).

Família: o meu pai, a minha mãe, a minha irmã de sangue e a de coração. Uma prima (H.), o marido (primo V.) e as filhas (minhas priminhas E. e N.) . E os meus tios velhinhos (tia A. e o tio A.).

A culpa foi da ea... ou talvez não.

Porque até que se entende: deixei de ser rentável (20 a 30% desconto na factura dos óculos - desconto familiar - e, às vezes, até ficavam de graça), todos os que podiam beneficiar da minha cunha para entrar para a empresa, já lá trabalhavam... para quê darem-se ao trabalho de aparecer, de telefonar... de querer saber o que eu tinha?

O meu trabalho foi a primeira grande mudança. Antes estava lá todos os dias (não fazia férias, não tirava folgas, não falhava um único fim de semana) de 10 a 14 horas por dia. Uma verdadeira viciada. Eu gostava tanto do que fazia... (saudades da minha oficina...). Era eu que resolvia os "rollos" todos. A que ficava com os clientes problemáticos, com as crianças, com os velhinhos. E sempre que alguém fazia porcaria (passo a expressão) era eu que falava com os clientes, porque eu era "uma excelente mediadora de conflitos", segundo os meus colegas e superiores.

O primeiro desmaio. Um segundo... o terceiro. Baixa médica por 4 meses."Ela queria era férias prolongadas"... o que é que eu queria, diz-me? "Férias prolongadas", responde. Ela o disse, todos acreditaram. Depois de tudo... doeu (e ainda dói).

Consegui aguentar mais 10 meses mas cabei por me despedir. Não deu mais.

A família foi a segunda grande mudança. Uma das tias: "Ai filha, aqui na terra não temos tempo para mariquices dessas... dores, quais dores (que-eu-cá-sou-muito-forte-uma autêntica-guerreira)". Outra tia: "Mas porque não vais trabalhar? Vais ver que te vai fazer bem"... pérolas seguidas de pérolas. Tantas que daria um colar daqueles que todas as mulheres gostariam de ter: grande, muito grande... quase sem fim.

O pior foi mesmo o meu "mano". O meu primo tratava-me por mana. E eu sempre o senti meu irmão. A nossa cumplicidade era tanta que, mesmo longe, sabíamos quando um estava mal, a precisar do outro. Eramos... tudo.

Somos nada. Desde que fiquei doente. Nada... nada... nada...
[Chorei tanto, tanto, tanto... ainda choro, porque nem sequer me explicaste o porquê]

A sociedade foi a cereja em cima do bolo: principalmente a comunidade médica... várias dezenas de médicos, algumas centenas de euros gastos e só ouvia disto: "vá trabalhar senão os Ucranianos ficam com o seu trabalho..."

Finalmente, encontrei um médico - médico com M grande - que me ouviu sem ter consulta marcada, sem me cobrar nada. Exames e mais exames. Urgência.

Diagnóstico: Espondilite Anquilosante. Resposta: "Então, eu não sou maluca, Sr. Dr.? Nem preguiçosa?" Feliz. Muito feliz. Naquele momento fui a mulher mais feliz do mundo.

Naquele momento. Só.

No momento a seguir o acordar de um pesadelo para um outro pesadelo.

Hoje sou uma pessoa diferente. Mudei porque tudo mudou para mim. Eu não me reconheço. Olho-me ao espelho, sei que sou eu... mas não me reconheço.

Outro dia, o Toni tirou-me uma fotografia. Tenho-a guardada. Olh0 para ela, eu não sou aquela.

Da mudança, creio que o pior de tudo é isso mesmo: ter-me deixado de me reconhecer.

Fechei-me para o mundo. Fechei-me para os outros. Se alguém tenta entrar no meu mundo, afasto-me. Custa-me falar. Custa-me conviver. Quero estar só. Comigo. Não me apetece ver ninguém.

Tenho uma amiga nova. A F.P. Nem ela sabe como é especial para mim. Ela é tanto... é tudo. Porque foi a única que conseguiu. Derrubar essa parede que, tão habilmente, construí à minha volta. Faz me rir... com ela volto a ser a Susana que fui aos 6, aos 16... aos 26 anos (obrigada amiga, de todo o meu coração).

Existem mais pessoas que tentaram - ou que ainda estão a tentar - mudar-me. A uma certa altura, com uma certa pessoa, eu também tentei... embalada pela atenção, pelo carinho, pela preocupação, pela amizade dessa pessoa que eu não conheço, não sei o nome... (sei que existe porque enviou-me óleo de fígado de bacalhau com sabor a limão para ajudar-me na minha recuperação). Tentei... mas falhei. Sem quê nem porquê deixei de lhe falar. Porque já estava a custar demasiado... [penso em ti, todos os dias... sinto-me envergonhada, enojada pelo meu egoísmo... o que eu te fiz não tem perdão e eu odeio-me por isso]

Custa-me, simplesmente. Chega a ser um verdadeiro sacrifício.

Ter que falar, ter que conviver, ter que ver, sorrir... custa-me. Chego a ficar doente só de pensar em sair do meu mundo.

Porque este é o meu mundo.

Sinto-me longe o suficiente para me sentir segura. E, eu quero sentir-me segura.

Não iria aguentar mais desilusões... não iria, simplesmente.

A ea, a família, os amigos, a sociedade e eu.

A ea está controlada graças à dieta.

A família continua a mesma (a mãe, o pai, as manas, os tios velhinhos; a prima, o marido e as filhotas) + a família nova (do meu marido) que me acolheu de uma forma que jamais possível. Sinto-os como se fossem meus desde sempre... porque eles fazem-me sentir assim, desde o primeiro dia.

Os amigos, os mesmos. Mais a F.P. (de quem eu falei à pouco); a I. (que é, para mim, uma verdadeira irmã) e o marido C. - e dois filhotes lindos (a R e o T). E o meu médico o Dr. A. a quem eu devo a minha vida (e ele nem imagina isso).

A sociedade continua, corrompida e falsa, como sempre esteve.

Eu estou assim. Deprimida.

Por isso, estas palavras... a catarse que eu tanto preciso para ver se enterro tudo isto de uma vez por todas.

Porque quero voltar a ter 6 anos.

6 comentários:

maria da conceição disse...

Olá Susana, há meses que acompanho o seu Forum, leio as suas palavras que sempre foram de esperança, de força, de ânimo. Hoje o seu discurso está diferente, mais triste e desiludida...
No sótão, a filha mexe-se ao som da música. Com preguiça de ir à piscina, compensa fazendo alguns exercícios ao ritmo da música tecno. A seguir vai beber um sumo de fruta acabado de preparar e uma colher de óleo de côco extra virgem... E os planos não param , olhando em frente sem pensar que a ea é masi forte do que ela. É assim a INÊS.
Um abraço
Maria, MÃe de INÊS

Susana Lopes disse...

Olá, Maria, mãe da Inês... obrigada pelas suas palavras tão reconfortantes.

Eu não sou assim, só estou um pouco cansada. Não estou revoltada com a EA (essa já deixou de ser um problema para mim, há muito tempo, graças à dieta), só com as pessoas. Mas não com todas as pessoas porque existem muitas pessoas que são lindas, que estão do meu lado e que não me deixam só.

Pessoas que eu nem sequer conheço, como a Maria (mãe da Inês - que espero que esteja bem e que continue a dançar muito porque a Vida merece ser dançada).

Muito obrigada mesmo, que a vida a abrace muito :)

Um beijinho,

Susana

Páscoa disse...

Querida amiga:

Desde que escreveu estas palavras tão sentidas e amarguradas, que eu penso em comentar...mas como posso comentar algo tão profundo com palavras banais, não posso e não devo.
Como sabe também já tenho a minha quota de desgostos, amarguras muitas também, mas aprendi consigo tantas verdades,ter esperança, fé, vontade de ajudar sem receber nada em troca.
A Susana é tudo isto, um ser maravilhoso,único e especial. Só lhe peço em nome da grande amizade que nos une, que perdoe os que a magoaram e principalmente perdoe a vida!
Deixe tudo isso para trás, não vale a pena carregar um fardo do qual não foi responsável!
Enterre tudo de uma vez, esqueça e aproveite tudo de bom que a vida lhe ofereceu em troca do que perdeu.Tenho a certeza que o saldo é positivo.
"Nada acontece por acaso" a Vida ou Deus sabe o que faz.

Estou a ver neste momento:
A Susana linda e irrequieta com seis anos acompanhada daquela menina com tanta imaginação que ninguém compreendia, juntas de mãos dadas a caminhar até à Terra do Nunca.
Aliás, neste momento acho que já lá estamos...

beijinhos

Susana Lopes disse...

...obrigada, minha tão querida amiga. Juntinhas... não é?

Jonvesper disse...

Chorei com este depoimento,Suzana por favor não fique mais assim que me corta o coração. Hoje você é a minha maior esperança.Um grande beijo no seu coração.

Jonvesper disse...

Suzana minha intelectual minha grande esperança.Chorei com este depoimento.Seja a Suzana que sempre vejo em seus dialogos. Um beijo em seu coração minha linda.